
Octopath Traveler 0 chega com a proposta de renovar uma franquia que se tornou referência no estilo HD-2D e entre os RPGs clássicos modernos. Após popularizar essa estética e conquistar fãs com sistemas de combate estratégicos e narrativas fragmentadas, a série agora aposta em mudanças importantes, como um protagonista personalizável, construção de cidades e batalhas ainda mais complexas. O resultado é um jogo que busca equilibrar tradição e inovação, mantendo a essência dos títulos anteriores enquanto arrisca novas ideias.
Ambientado no continente de Osterra, o jogo apresenta uma história marcada por tragédia, vingança e ambição, colocando o jogador no centro de conflitos que envolvem poder, fama e ganância. Ao mesmo tempo, Octopath Traveler 0 amplia a liberdade de exploração e aprofunda sua jogabilidade, oferecendo dezenas de horas de conteúdo. Mas será que essas mudanças e alterações realmente funcionam? Nesta análise, avaliamos história, combate, exploração e apresentação para responder à pergunta principal: Octopath Traveler 0 vale a pena?
Uma nova proposta para a franquia: contexto, premissa e primeiras impressões
Octopath Traveler 0 chega com a missão nada simples de reinventar uma série que ajudou a popularizar o estilo HD-2D e, ao mesmo tempo, manter a identidade que conquistou os fãs de RPG clássico. Mesmo com o visual já bastante difundido em outros títulos da Square Enix, o jogo ainda chama atenção por sua direção artística cuidadosa e por buscar novas ideias dentro de uma fórmula conhecida. Aqui, a proposta não é apenas repetir o que deu certo nos jogos anteriores, mas questionar algumas convenções da própria franquia e expandi-las de maneiras inesperadas.
A principal mudança já aparece logo no início: pela primeira vez, o jogador cria seu próprio protagonista. Em vez de acompanhar oito histórias separadas com personagens fixos, como nos jogos anteriores, Octopath Traveler 0 aposta em uma narrativa mais centralizada, com um herói personalizável que permanece no grupo durante toda a jornada. Essa decisão altera profundamente a forma como a história é contada e como o jogador se conecta com o mundo, dando mais liberdade, mas também trazendo desafios narrativos evidentes ao longo da campanha.
A trama começa em Wishvale, uma vila simples e acolhedora que tem sua rotina brutalmente interrompida por um ataque devastador. Tytos e Auguste, em busca de um poderoso artefato, incendeiam a cidade e deixam um rastro de destruição. Em meio ao caos, o protagonista sobrevive graças à ajuda de Nomos e recebe o Anel do Portador da Chama, um dos artefatos centrais da história. Logo fica claro que o ataque faz parte de algo maior, envolvendo também Lady Herminia, formando o trio de antagonistas conhecidos como os Três Grandes.
A partir desse evento traumático, o jogo estabelece dois grandes objetivos que conduzem toda a experiência inicial: reconstruir Wishvale ao lado de Stia, sua amiga de infância, e buscar vingança contra aqueles que destruíram sua cidade. Essa dualidade entre reconstrução e vingança dá o tom da aventura e ajuda a definir o ritmo das primeiras horas, misturando momentos mais intimistas com uma jornada épica de confronto contra figuras poderosas e corrompidas pelo status, pela fama e pela ganância.
Desde o começo, Octopath Traveler 0 deixa claro que será uma experiência mais livre do que seus antecessores. O jogador pode escolher qual arco narrativo seguir primeiro ou simplesmente explorar o continente de Osterra sem grandes restrições. Essa sensação de liberdade agrada quem gosta de RPGs menos guiados, mas também começa a expor algumas fragilidades, especialmente na forma como a história se desenvolve e na construção emocional do protagonista, que permanece quase sempre em silêncio. Ainda assim, como ponto de partida, o jogo apresenta uma base sólida, ambiciosa e cheia de potencial para se desdobrar nas muitas horas que vêm pela frente.
História, personagens e vilões: ambição narrativa com altos e baixos

A narrativa de Octopath Traveler 0 aposta em temas mais sombrios e maduros do que pode parecer à primeira vista. A destruição de Wishvale não serve apenas como um gatilho para a jornada do jogador, mas como o ponto central de uma história que discute poder, corrupção, fama e ganância. Os três grandes antagonistas são peças fundamentais nesse aspecto, funcionando quase como representações extremas desses vícios. Tytos usa sua influência política e militar para impor sua vontade, Herminia vive cercada de excessos e crueldade alimentados pela riqueza, enquanto Auguste transforma o sofrimento alheio em combustível para sua arte dramática.
Entre eles, Auguste se destaca como um dos vilões mais marcantes do jogo. Sua postura teatral, aliada a atitudes sádicas e perturbadoras, ajuda a criar momentos de grande impacto, reforçando o tom adulto da trama. Já Herminia gera reações mais divididas, principalmente pela forma como sua história aborda temas sensíveis de maneira nem sempre cuidadosa. Ainda assim, o trio como um todo funciona bem como força motriz da narrativa, oferecendo motivações claras e uma sensação constante de ameaça ao longo da aventura.
Por outro lado, a decisão de permitir a criação de um protagonista personalizável cobra seu preço. Apesar de o jogador poder definir pequenos detalhes de sua história, como preferências pessoais que influenciam certos eventos, o personagem principal quase não possui falas. Essa ausência de diálogo e reações mais expressivas dificulta a criação de um vínculo emocional mais forte, especialmente em cenas que deveriam carregar grande peso dramático. Em vários momentos, a sensação é de que a história acontece ao redor do protagonista, e não através dele.
Os companheiros ajudam a preencher parte desse vazio, mas de forma irregular. Personagens como Phennen e Stia recebem mais atenção e desenvolvimento, com histórias que exploram traumas, laços afetivos e o impacto da tragédia de Wishvale. Já outros aliados entram no grupo de maneira apressada, com motivações superficiais e pouca construção narrativa. Essa diferença de profundidade entre os membros do elenco torna o conjunto menos coeso, passando a impressão de que alguns personagens existem mais por função mecânica do que por relevância na história.
A estrutura episódica, marca registrada da franquia, também influencia o ritmo da narrativa. Os arcos precisam ser avançados em paralelo, o que quebra a tensão criada ao final de cada capítulo e pode causar estranhamento, principalmente em uma história que começa com um forte sentimento de vingança pessoal. Ainda assim, conforme o jogo avança e a trama se expande para conflitos maiores entre reinos, a narrativa ganha fôlego e consegue manter o interesse, mesmo que nem sempre atinja todo o potencial que sua premissa sugere.
Combate estratégico e progressão: o verdadeiro coração de Octopath Traveler 0

Se há um aspecto em que Octopath Traveler 0 realmente se destaca, é no seu sistema de combate. À primeira vista, tudo parece familiar para quem já conhece a franquia ou os RPGs clássicos de 16 bits: turnos bem definidos, exploração de fraquezas elementais e gerenciamento cuidadoso de recursos. No entanto, conforme as mecânicas se revelam, fica claro que o jogo expande essa base de forma inteligente, oferecendo uma experiência estratégica profunda e constantemente desafiadora.
O combate gira em torno do uso de Pontos de Batalha, Pontos de Habilidade e do sistema de “quebra” dos inimigos. Cada turno concede recursos que podem ser acumulados para potencializar ataques, habilidades e técnicas especiais, permitindo ações muito mais poderosas e eficazes no momento certo. Explorar corretamente as fraquezas dos inimigos é essencial para deixá-los vulneráveis e incapazes de agir, abrindo espaço para sequências ofensivas devastadoras. Essa dinâmica transforma cada confronto em um pequeno quebra-cabeça, exigindo planejamento e leitura constante da situação.
A grande novidade está na formação do grupo. Em vez de apenas quatro personagens ativos, Octopath Traveler 0 permite utilizar oito membros ao mesmo tempo, divididos entre linha de frente e na retaguarda. Enquanto os personagens da frente lidam diretamente com os inimigos, os da retaguarda acumulam recursos e ficam praticamente protegidos de ataques, podendo ser substituído a qualquer momento. Esse sistema adiciona uma camada extra de estratégia, já que posicionamento e timing passam a ser tão importantes quanto escolher a habilidade certa.
A variedade de classes e profissões também contribui para a profundidade do combate. Cada personagem possui um papel bem definido, com habilidades próprias e tipos específicos de armas, enquanto o protagonista criado pelo jogador se destaca por poder alternar entre diferentes classes. Isso torna a composição do grupo extremamente flexível, incentivando testes e ajustes constantes conforme novos desafios surgem. Com o avanço do jogo, o desbloqueio de habilidades de suporte e técnicas de maestria amplia ainda mais as possibilidades, permitindo combinações que realmente mudam a forma de enfrentar batalhas mais difíceis.
Apesar da complexidade crescente, o jogo apresenta uma progressão de dificuldade bem ajustada. Os desafios aumentam gradualmente, forçando o jogador a dominar as mecânicas em vez de simplesmente confiar em níveis altos. Ainda assim, o grind é uma presença constante, como em muitos RPGs clássicos, e pode afastar quem não aprecia esse ritmo mais lento. Por outro lado, essa escolha evita que o jogador fique excessivamente poderoso, garantindo que cada vitória seja fruto de estratégia e não apenas de força bruta. No fim das contas, o combate é tão envolvente que se torna o principal motivo para continuar explorando tudo o que Octopath Traveler 0 tem a oferecer.
Exploração, construção de cidade e ritmo de jogo: liberdade que cobra seu preço

Octopath Traveler 0 aposta fortemente na sensação de liberdade, permitindo que o jogador explore o continente de Osterra quase sem amarras desde as primeiras horas. É possível escolher qual arco narrativo enfrentar primeiro ou simplesmente sair pelo mundo conversando com NPCs, coletando informações, recrutando aliados e enfrentando inimigos espalhados pelo mapa. Essa estrutura aberta agrada quem gosta de RPGs menos lineares, mas também evidencia alguns problemas de ritmo, principalmente no início da jornada.
A exploração em si segue um ciclo bastante tradicional. Os encontros aleatórios são frequentes e, como os inimigos não escalam com o nível do grupo, revisitar áreas antigas pode se tornar repetitivo e pouco recompensador. Em vários momentos, o jogador acaba enfrentando os mesmos inimigos fracos, recebendo pouca experiência e sentindo que o avanço é mais lento do que deveria. Esse desgaste inicial é amenizado conforme novas cidades são desbloqueadas e o sistema de viagem rápida entra em cena, facilitando o acesso a áreas mais desafiadoras e interessantes.
Um dos grandes diferenciais desta edição é a reconstrução de Wishvale. A mecânica de construção de cidade funciona de forma simples e intuitiva, permitindo criar e reorganizar edifícios em uma grade prática. Recrutar moradores de outras regiões não serve apenas para dar vida à cidade, mas também para ativar funções importantes, como coleta automática de recursos e acesso a lojas especializadas. Esse sistema reduz a necessidade de grind excessivo e cria uma sensação constante de progresso fora das batalhas.
A construção da cidade também se conecta de maneira eficiente com o restante do jogo. Materiais obtidos em masmorras opcionais podem ser usados para aprimorar edifícios, enquanto uma Wishvale mais desenvolvida oferece melhores equipamentos, treinamentos e suporte para o grupo. Embora não seja profunda o suficiente para se sustentar sozinha como um simulador de cidade, essa mecânica funciona muito bem como um complemento à experiência principal, servindo como um respiro entre longas sessões de combate.
As Ações de Caminho, outro elemento clássico da franquia, retornam de forma mais simplificada. Como o protagonista está sempre presente, suas ações estão sempre disponíveis, enquanto os demais personagens oferecem opções mais limitadas. Isso torna a exploração das vilas menos complexa do que nos jogos anteriores, reduzindo o fator de descoberta após o recrutamento dos NPCs. Ainda assim, o conjunto de exploração, construção e progressão consegue manter o jogador envolvido, desde que ele esteja disposto a aceitar um ritmo mais cadenciado e, por vezes, repetitivo.
Direção de arte, trilha sonora e apresentação: tradição HD-2D em destaque

Visualmente, Octopath Traveler 0 mantém o alto padrão que tornou a série reconhecida entre os fãs de RPG japonês. O estilo HD-2D continua sendo o grande cartão de visitas, combinando sprites em pixel art com cenários tridimensionais, iluminação dinâmica e efeitos de profundidade que remetem diretamente à era de ouro dos jogos de 16 bits. Mesmo com esse estilo já mais comum atualmente, o jogo ainda consegue entregar cenas visualmente impactantes, especialmente em cidades, ruínas e momentos-chave da narrativa.
Apesar disso, a direção de arte não é isenta de críticas. Osterra é um mundo agradável de explorar, mas pouco ousado em termos de identidade visual. Florestas, cavernas, estradas e vilas seguem padrões bastante familiares, o que pode causar uma sensação de déjà vu ao longo da jornada. Em alguns casos, a paleta de cores mais apagada e dessaturada contribui para um visual elegante, mas também pode parecer excessivamente sóbrio, principalmente em longas sessões de jogo ou no modo portátil, onde os efeitos de iluminação nem sempre agradam a todos.
Ainda assim, o cuidado artístico se faz presente nos detalhes. Personagens, inimigos e chefes possuem animações bem trabalhadas, e os efeitos visuais durante o combate reforçam o impacto das habilidades e técnicas especiais. Mesmo áreas aparentemente simples escondem segredos, como caminhos alternativos, inimigos de elite e baús trancados, incentivando o jogador a observar o cenário com atenção e explorar além do óbvio.
A trilha sonora acompanha esse cuidado técnico e artístico. As músicas conseguem equilibrar momentos de tranquilidade e contemplação durante a exploração com temas mais intensos e dramáticos nas batalhas e confrontos narrativos. Cada região possui uma identidade sonora própria, ajudando a criar atmosfera e reforçar a imersão no mundo do jogo. Mesmo após muitas horas, a música raramente se torna cansativa, funcionando como um elemento essencial da experiência.
No conjunto, a apresentação de Octopath Traveler 0 pode não reinventar o estilo HD-2D, mas entrega exatamente o que se espera de um RPG dessa proposta: um visual consistente, trilha sonora marcante e uma identidade estética que respeita o passado enquanto se adapta aos padrões modernos. Para muitos jogadores, esse equilíbrio entre nostalgia e sofisticação será um dos grandes atrativos da aventura.
Vale a pena jogar Octopath Traveler 0? Pontos fortes, limitações e veredito final

Após dezenas de horas, Octopath Traveler 0 se revela como um RPG ambicioso, que tenta equilibrar tradição e renovação dentro de uma fórmula já conhecida. O jogo acerta em cheio ao expandir seu sistema de combate, oferecendo batalhas estratégicas, desafiadoras e extremamente satisfatórias, capazes de sustentar a experiência por muito tempo. A inclusão de um grupo com oito personagens ativos, aliada à flexibilidade de classes e às mecânicas avançadas de progressão, faz com que cada confronto tenha peso e exija envolvimento real do jogador.
Por outro lado, nem todas as mudanças funcionam com a mesma eficiência. A decisão de apostar em um protagonista personalizável e quase silencioso compromete parte da força emocional da narrativa, especialmente em momentos que pedem maior impacto dramático. A história apresenta temas interessantes e vilões marcantes, mas sofre com um ritmo irregular e com a diferença de desenvolvimento entre personagens, fazendo com que alguns aliados pareçam descartáveis ao longo da jornada. A estrutura aberta, a exploração livre e o sistema de construção de Wishvale ajudam a criar uma sensação constante de progresso, embora também tragam repetição, grind e encontros pouco relevantes em determinados momentos.
Ainda assim, essas limitações tendem a ser amenizadas conforme o jogador se aprofunda nas mecânicas e passa a aproveitar melhor a liberdade oferecida pelo jogo. No fim das contas, Octopath Traveler 0 pode não ser o RPG mais envolvente do ponto de vista narrativo, nem o mais acessível para quem não aprecia um ritmo mais cadenciado, mas compensa essas falhas com uma jogabilidade profunda, valores de produção elevados e um ciclo de combate viciante. Para fãs de RPGs clássicos, especialmente aqueles que gostam de experimentar sistemas complexos e explorar possibilidades estratégicas por horas a fio, trata-se de uma experiência altamente recomendável, mesmo que não conquiste todos os públicos da mesma forma.

Vantagens (Prós)
- Combate mais tático e profundo, exigindo estratégia real a cada batalha.
- Construção da cidade é relaxante e se conecta bem com a progressão.
- Sistema de batalhas com até oito personagens ativos ao mesmo tempo.
- Progressão complexa, com classes, habilidades e boas opções de customização.
- Vilões marcantes, com temas adultos e impacto real na narrativa.
- Alta liberdade de exploração combinada às Ações de Caminho.
- Visual HD-2D caprichado e trilha sonora envolvente.
Desvantagens (Contras)
- Protagonista silencioso enfraquece o envolvimento emocional da história.
- Repetição de áreas e inimigos pode tornar o ritmo cansativo.
- Ações de Caminho menos relevantes do que em jogos anteriores.
- Estilo HD-2D pode perder impacto no modo portátil.
- Companheiros e colonos poderiam ter histórias mais profundas.
- Estrutura episódica causa ritmo irregular e sensação de desconexão.
COMFIRA TAMBÉM:


